A importância de receber um cicloturista – e as redes que possibilitam isso na internet

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A polonesa Kasia e o espanhol Ruben ao passar por Fortaleza/CE, em sua viagem pela América do Sul. Foto: Claudio Henrique Santos

A polonesa Kasia e o espanhol Ruben, ao passar por Fortaleza/CE, em sua viagem pela América do Sul. Foto: Claudio Henrique Santos

Em viagens de longa duração, que em alguns casos duram anos, cicloturistas dificilmente conseguem se manter com recursos próprios, já que estão passando por um período da vida onde não obtêm rendimentos. E qualquer ajuda que possam receber, como uma refeição, um local para tomar banho ou para passar a noite antes prosseguir viagem, são sempre de grande ajuda.

Ao longo da estrada, eles conhecem outras pessoas e entram em contato com moradores locais. E geralmente da maneira mais simples possível: parando na rua e conversando.

Ciclistas locais costumam ser bastante receptivos: reconhecem um cicloturista pela quantidade de alforges e outras bagagens presas na bicicleta e logo puxam assunto. E isso é muito importante, porque o que o cicloturista mais precisa é de amizade, refeição e hospedagem.

Em troca, você vai conhecer outra cultura, outras histórias, outra experiência de vida e uma visão de mundo bastante diferente da sua, que pode lhe inspirar para a vida. E saber que aquela pessoa vai partir levando, para onde quer que vá, gratidão no coração por sua acolhida hospitaleira, é o melhor de tudo.

João Paulo Amaral (esq), Evelyn Araripe (dir), Mari da Bélgica (de preto) e dois cicloturistas do Equador. Foto: arquivo pessoal

Por que hospedar viajantes?

“A vantagem de hospedar viajantes é a oportunidade de conhecer o mundo dentro da sua casa”, conta Evelyn Araripe, que já teve a oportunidade de conhecer diversos cicloturistas dessa forma através da rede Warm Showers (veja mais abaixo). “A maioria dos nossos hóspedes eram pessoas dando a volta ao mundo de bicicleta. Consegue imaginar o tanto de histórias que eles carregavam na bagagem? Foram hóspedes incríveis, que nos contaram histórias surpreendentes. Alguns deles se tornaram verdadeiros amigos e mantemos contato até hoje.”

E como é se hospedar assim na casa de alguém? “A pessoa que acolhe o cicloturista é, na maioria das vezes, também ciclista”, explica Evelyn. “O anfitrião sabe que você vai chegar cansado, com fome, precisando de um banho e de um canto para descansar. São pessoas que te entendem simplesmente pelo fato de você viajar de bicicleta, que querem compartilhar histórias e experiências e em muitos casos mostrar as suas cidades sobre outra perspectiva, que foge do turismo habitual”.

Evelyn Araripe e o cicloturista francês Daniel Perou, conhecendo o pastel brasileiro em uma feira livre. Foto: arquivo pessoal

Amizades sólidas

Evelyn nos contou o caso de um francês, que ela e o companheiro hospedaram no final de 2010. “Ele já estava na estrada há quase 4 anos e chegou em casa, em São Paulo, dizendo que ficaria só por três dias pois não gostava de cidades grandes. Mas ficou tão encantado com o movimento cicloativista de São Paulo, e por conhecer a cidade pedalando, que se apaixonou pela capital e acabou ficando 15 dias! Nesse tempo tivemos alguns eventos de família e levamos ele com a gente. Imagina o francês no meio de um churrascão brasileiro?”

“O nome dele é Daniel Perou e ele se tornou um grande amigo. Todos os anos nos envia mensagem em nossos aniversários, pergunta de nossas famílias, manda mensagens de natal, ano novo etc. E em março de 2016 tivemos a oportunidade de visitá-lo na França. Ficamos com ele por três dias e foi muito bom poder revê-lo depois de mais de 5 anos. Uma amizade que só a bicicleta e esse sistema de hospedagem colaborativa poderia nos proporcionar.”

Rede Warm Showers

Rede Warm Showers tem mais de 50 mil membros ativos em todo o mundo. Imagem: Reprodução

Rede Warm Showers tem 100 mil membros ativos em todo o mundo. Imagem: Reprodução

Permitir que um cicloviajante possa encontrar alguém disposto a hospedá-lo por uma noite, servir um prato de comida e, como o nome da rede diz, emprestar um chuveiro quente: é esse o objetivo da Warm Showers, uma rede informal e colaborativa que conta com cerca de 100 mil membros ativos em todo o mundo (dados de agosto/2017). Com mais de 50 mil residências e locais cadastrados para receber o cicloturista, o projeto colaborativo tem até aplicativos para Android, iPhone e Windows Phone.

O cicloativista e cicloturista Dudu Green, de Florianópolis, em seu extinto blog Ciclonômade, fez uma vez um relato sobre sua utilização da rede Warm Showers. O blog não existe mais, mas neste link ainda é possível ler o relato, do ano de 2009: “Redes de hospitalidade para viajantes não são novidade, as principais são Hospitality Club e Couch Surfing“, contava Green no site. “A grande diferença do Warm Showers é que cicloviajantes são como uma grande família, fazemos de tudo pra ajudar uns aos outros, pelo prazer de ver alguém chegando com a bici carregada, cheio de empolgação e histórias pra contar.”

Incentivamos os brasileiros a também se cadastrarem no site, para recepcionar os estrangeiros (e os cicloviajantes de outras regiões de nosso país) com a mesma hospitalidade com que nossos cicloturistas têm sido recebidos em outros países. Quem já viajou de bicicleta sabe a diferença que faz ter um lugar onde descansar, algo para comer e alguém para conversar ao chegar sozinho em uma cidade estranha.

Foto: Raquel Jorge

Cuidados ao hospedar e aceitar hospedagem

Como confiar em desconhecidos? Para Evelyn, é sempre bom pesquisar um pouco sobre quem você vai hospedar. “Quando recebo solicitação de hospedagem vejo se a pessoa já tem avaliações de outros anfitriões, pergunto se a pessoa tem site ou blog de sua viagem e adiciono a pessoa no Face. Assim você consegue entender o perfil da pessoa e avaliar se quer mesmo tê-la em sua casa.”

“Eu só recusei uma vez um hóspede”, lembra ela. “Era uma pessoa, pelo perfil e pelas mensagens que trocamos, que visivelmente buscava só uma hospedagem de graça e não uma troca de experiências.”

O mesmo vale para quando ela vai ficar na casa de alguém. “Quando busco hospedagem, faço o mesmo ritual: vejo se os anfitriões tem avaliações de outros hóspedes e troco muitas mensagens para irmos nos conhecendo até o dia da hospedagem.”

Foto: Raquel Jorge

Por que viajam de bicicleta, afinal?

Entre os cicloturistas, há os que criam um projeto de pesquisa, educacional, social ou jornalístico para ser realizado ao longo da viagem, conseguindo obter um patrocinador ou um financiamento por crowdfunding ao transformar a viagem em trabalho. Alguns se tornam ciclonômades, parando por dias ou meses ao longo do caminho conforme encontram trabalho, até juntar um pouco de dinheiro para prosseguir a viagem.

Mas, na maioria dos casos, essas pessoas buscam puramente uma experiência pessoal, com o engrandecimento espiritual e de caráter que se consegue em uma cicloviagem longa. O cicloturismo passa a ser uma peregrinação, buscando o conhecimento interior, trilhando caminhos do mundo e da mente. Mais do que apenas seguir por caminhos, é uma viagem por pessoas, incluindo a si próprio. E o suprimento de necessidades básicas – como comer e dormir – faz parte desse aprendizado.

Essa postagem foi feita originalmente para pedir ajuda a um casal de cicloturistas que viajava pelo Brasil em 2014: Kasia, polonesa, e Ruben, espanhol. Eles foram acolhidos por diversos brasileiros ao longo de sua passagem pelo país, com refeição, um lugar para dormir ou mesmo sendo recebidos na entrada das cidades, para terem apoio ao se deslocar por elas e conhecer seus principais pontos turísticos. Eles possuem uma página no Facebook, a Vivir en Ruta.

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