Com sol forte e rajadas de vento afetando a pedalada, colunista do Vá de Bike chega à Suécia

Em Gothenburg, na Suécia. Foto: Arquivo pessoal

Em Gothenburg, na Suécia. Foto: Arquivo pessoal

Entrar na Suécia foi emocionante. Saí cedo de Halden, ainda na Noruega. Sabia que os primeiros 7 km seriam de subida. Tranquilo. Parei para pedir informações duas vezes, mas não me perdi nenhuma. Peguei uma estrada secundária que ia serpenteando, ora pela direita, ora pela esquerda, a E6 – estrada principal onde bikes não podem trafegar.

Entrei em uma subida, muito longa, que fazia uma curva para a esquerda. Quando a subida acabou meu queixo caiu. Estava em uma ponte muito, muito alta. E a vista era simplesmente espetacular. Do lado direito a Noruega, do esquerdo a Suécia. No meio um fiorde de águas azuis e mais à frente uma ponte cinematográfica – a E6, também conectando os dois países.

Parei no “Customs Control“. Na fila, eu e um zilhão de caminhoneiros. Fui informada de que eles não carimbavam passaportes. Uma vez na Escandinávia você pode entrar e sair dos países sem se preocupar com a imigração, desde que respeite o período de 6 meses.

Consertando o pneu da bike a caminho de Stromstad. Foto: Arquivo pessoal

Consertando o pneu da bike a caminho de Stromstad. Foto: Arquivo pessoal

Pneu no chão

Depois de cruzar a fronteira parei para comer, ventava muito e a bike caiu. Quando a levantei, pneu traseiro no chão. Putz… Comecei a repassar na memória o filminho da aula que tive na Aro 27. Tirei os alforjes e coloquei a mão na graxa.

Demorou um pouco, mas consegui voltar à estrada, que estava bela e deserta. Uns 15km depois parei para tirar uma foto. A bike caiu (vento maledito) e para minha surpresa e desespero, pneu no chão de novo. Com certeza eu fiz alguma besteira e bateu uma preocupação: só tinha mais uma câmara e estava no meio de uma estrada deserta e sem perspectiva de sombra.

Deu aquele desânimo, sabia que isso ia acontecer… mas duas vezes no mesmo dia?? Apertei minha medalhinha de Nossa Senhora, olhei pro céu azul e de repente, ela falou comigo. Sussurrou no meu ouvido: “Vai sentar e chorar agora? Larga a mão de ser fraca, mano. Se concentra em resolver o problema e para de mimimi. Pensa nos tiozinhos que sobem a serra de Barraforte, com banana e coco verde na sacola! Bora, bora trocar essa bagaça e num quero saber de reclamação que tá muito sol, pensa que podia ser chuva e engole o choro!”

Diante destas sábias palavras fiz exatamente isso. E deu certo. Não totalmente, pois na hora de montar a roda sobrou uma mola na minha mão que tô até agora sem saber pra que serve. E fiquei completamente sem freio traseiro. Mas minha magrela aguentou firme e me levou, em segurança, para Stromstad, minha primeira parada neste país ainda desconhecido. Achei uma bicicletaria incrível, arrumaram o freio e trocaram dois raios da roda dianteira que estavam quebrados.

A lua em Stromstad. Foto: Raquel Jorge

A lua em Stromstad. Foto: Raquel Jorge

Sol e vento

No segundo dia saí cedo e o sol já estava forte. Mas se houvesse um braço de ferro entre o sol e o vento, o vento teria ganho disparado. Foram só 32km, mas foi tenso. O que eles chamam de ciclorota aqui, na real é a estrada secundária, onde é permitido o tráfego de bicicletas. Apesar disso, não cruzei nenhuma. Só dava eu de bike na via 163, com destino ao pequeno vilarejo de Grebbestad. Eu e muitos carros em uma estradinha de mão dupla sem acostamento. Soube depois que a estrada principal estava em obras, por isso tanto movimento na secundária.

O vento quando vinha de frente triplicava meu esforço para seguir adiante. E quando as rajadas vinham de lado o esforço era para permanecer em linha reta e não cair. Isso em uma estrada em que andar em linha reta é simplesmente crucial. Nunca peguei vento tão forte assim, em que você precisa pedalar na descida. Deixa eu contar: não é divertido! Condicionada a pedalar em São Paulo, é natural ficar tensa quando você sabe que está segurando o trânsito. Mas ninguém buzinou, ninguém tirou fina. O respeito que encontrei na Noruega continuou na Suécia.

Algumas horas depois, cheguei. Parei no primeiro B&B que avistei, logo na entrada da cidade (Bed & Breakfast – semelhante a uma pousada, mais informal e mais barato que hotel). Na porta, um aviso: “No rooms available for tonight” (nenhum quarto disponível para esta noite)! O mocinho na portaria viu minha cara de “putz” e veio me trazer um mapa da cidade, com o endereço de outros locais para dormir. Atrás do mapa estava escrito em um inglês precário: “1800 people in Grebbestad live throughout the whole year. In the summer population increases by 700%. Sunloving summer visitors fill up summer cottages, campsites, hostels, private rooms, B&B and hotels” ((1800 pessoas vivem em Grebbestad ao longo do ano. No verão a população aumenta em 700%. Visitantes em busca de sol e praia lotam chalés, campings, albergues, pousadas e hotéis).

Não diga? E eu que esperava encontrar um pacato vilarejo de pescadores me vejo em um point no meio da muvuca do verão. Enfim, a informação, colocando tudo no plural, não podia estar mais incorreta. Nada no plural. Era 1 camping, 1 hostel, 1 B&B…

Bati em várias portas a procura de um abrigo. Na quinta tentativa consegui um quarto (sem banheiro) em cima de um restaurante de frente pra marina (o restaurante, não o quarto – este dava para a estrada), pela pequena bagatela de 400 reais. CARO DEMAIS! Mas era um lugar para dormir e, aparentemente, o único. A porta do dito cujo estava quebrada (surprise, surprise…). Larguei os alforjes no restaurante e fui passear enquanto providenciavam um chaveiro.

A vantagem (quase que a única) é que um pratão de camarão saiu mais barato que um x-burger. Porta arrumada, banho tomado (no chuveiro do píer, que a galera dos barcos usa – rolou até fila com toalha e sabonete na mão), saí para tomar um vinho gelado e ver o sol se por, escandalosamente lindo! Nos barcos ancorados lado a lado, uma vida à parte, turmas e famílias (e cachorros) festejando o verão e olhando para um céu cor de rosa.

Quase todo barco trazia, em algum lugar, uma bicicleta.

A viagem continua.

Fronteira entre Noruega e Suécia. Foto: Arquivo pessoal

Fronteira entre Noruega e Suécia. Foto: Arquivo pessoal

Raquel Jorge fez uma cicloviagem de 6.200 km pela Europa, contornando o Mar do Norte e passando por Noruega, Suécia, Dinamarca, Alemanha, Holanda, Bélgica e Inglaterra. E ela conta os detalhes aqui no Vá de Bike, da preparação aos desafios do caminho, com dicas para quem tem vontade de ganhar o mundo e informações sobre a mobilidade nos locais onde passou. Veja o que ela publicou por aqui.

4 comentários para Com sol forte e rajadas de vento afetando a pedalada, colunista do Vá de Bike chega à Suécia

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