Ciclovia Via Mangue, no Recife, carece de acessos seguros, iluminação e árvores

O ciclista Amsterdam Saraiva na Via Mangue. Foto: Peu Ricardo

O ciclista Amsterdam Saraiva na Via Mangue. Foto: Peu Ricardo

Apesar de ter sido projetada primordialmente para favorecer o transporte particular motorizado, as diversas mudanças no projeto da avenida Celso Furtado, mais conhecida como Via Mangue, foram favoráveis à ainda precária infraestrutura cicloviária do Recife (PE). Após um mês de sua inauguração oficial, ciclistas avaliaram como “positiva com ressalvas” a ciclovia bidirecional de 4,36 quilômetros da via expressa.

Até o ano passado, a única estrutura para bicicleta existente na zona Sul do Recife eram os 9,26 km turístico-esportivo da orla. Destes, 7,85 km na avenida Boa Viagem são segregados dos carros e 1,41 km é de ciclofaixa na avenida Brasília Formosa. A ciclovia da Via Mangue atende à Lei Municipal 17.694/2011 que, em seu artigo 11, determina a obrigatoriedade de construção de estrutura cicloviária para novas ruas, incluindo pontes e viadutos.

Foto: Prefeitura de Recife

Foto: Prefeitura de Recife

Iluminação e vegetação

A segurança contra acidentes no trânsito, em um trajeto de 4,3 km, foi o ponto melhor avaliado pelos ciclistas que frequentam diariamente a ciclovia da Via Mangue. E não é à toa: para se ter uma ideia, cruzar a via, seja de bicicleta ou a pé, é uma tarefa que coloca a vida de qualquer pessoa em risco. O fotógrafo Marcelo Soares fez um vídeo no qual mostra, em time lapse, a dificuldade de fazer uma travessia segura no Pina para chegar e sair da ciclovia da Via Mangue. Assista aqui.

Se o projeto da ciclovia tivesse sido mais sensível a quem se desloca de bicicleta, outros detalhes seriam ponderados para tornar menos hostil o caminho dos bicicleteiros. A presença de vegetação na área da ciclovia, por exemplo, seria fundamental para amenizar o calor, assim como um sistema de iluminação bem planejado para oferecer mais segurança durante à noite.

“Sempre pego longos
trechos apagados.
É tenso.”

“Eu uso a Via Mangue para me deslocar de bicicleta antes mesmo de ficar pronta, pois achava seguro andar por lá ainda que a pista estivesse em obras. De dia, é bem árido e as árvores fazem falta. E de noite, eu me sinto meio inseguro e acho que pode vir a se tornar um foco de roubo. Sempre pego longos trechos apagados. É tenso”, avaliou o designer gráfico Fernando Vasconcelos. Ele é morador da zona sul e usa a bicicleta como modal diário para todas as suas atividades.

O vendedor Amsterdam Saraiva mora em Brasília Teimosa e trabalha no Ibura. Diariamente, usa a ciclovia da Via Mangue, antes mesmo de ser inaugurada oficialmente. “Eu acho mais rápida que a ciclovia da avenida Boa Viagem, que tem muitas curvas e muita gente parando no meio do fluxo. Foi a melhor coisa que me aconteceu porque antes andava em meio aos carros, levando fino na avenida Domingos Ferreira. Agora me sinto mais seguro”, disse Amsterdam.

Falta de conexão segura

Entre todas as ressalvas, o maior problema dessa estrutura cicloviária foi mesmo a ausência de conexões seguras em suas extremidades. Ela tem início no bairro do Pina, porta de entrada da zona sul, onde é intenso o fluxo de veículos, que podem circular a até 60 km/h. “É uma pena que quando se está no Pina, não existe mais conexão com nada. É um salve-se quem puder para quem está de bicicleta”, pontuou Fernando Vasconcelos.

O prefeito do Recife, Geraldo Julio (PSB), justificou que dois acessos foram abertos para se conectar à ciclovia da Via Mangue. “São quase oito quilômetros entre ciclovia e ciclofaixa. Além dos 4,3 km, ainda tem 1,7 km de ciclofaixa na avenida Antônio Falcão, em Boa Viagem, e 850 metros da nova ciclofaixa Jardim Beira Rio, no Pina. Essa última conecta a uma ciclovia de 450 metros já existente no entorno do Shopping RioMar”, detalhou Geraldo Julio.

A ciclofaixa que passa em frente ao RioMar, contudo, serve diariamente de estacionamento. Segundo a prefeitura do Recife, os motoristas que forem flagrados circulando ou estacionados sobre as rotas cicláveis receberá uma multa grave (R$ 127,69 + cinco pontos na carteira) ou gravíssima (R$ 574,62 + sete pontos na carteira), a depender da infração cometida.

“Se o ciclista sai ou chega à ciclovia
no início, fim ou meio da via expressa,
não tem solução segura”

Para um dos coordenadores da Associação Metropolitana dos Ciclistas do Grande Recife (Ameciclo), Cezar Martins, os acessos seguros à ciclovia da Via Mangue seriam imprescindíveis, já que ela liga um shopping a outro sem passar em frente a residências e comércios. “Se o ciclista sai ou chega à ciclovia no início, no fim ou no meio da via expressa, ele não tem solução segura para chegar e sair. Para acessar o bairro do Cabanga, é praticamente impossível. No projeto inicial, havia uma alça paralela à Ponte do Pina para acessar o Cabanga, que foi divulgada como solução para pedestres e ciclistas, mas até agora nada”, denuncia Cezar.

Na metade do bairro de Boa Viagem, após a conexão com a ciclofaixa da Avenida Antônio Falcão, o bicicleteiro também não tem solução segura para dar continuidade a seu trajeto, seja para acessar a avenida Mascarenhas de Moraes ou o bairro de Setúbal. “A Mascarenhas de Moraes é uma via prevista no Plano Diretor Cicloviário (PDC) para receber estrutura, mas até agora não houve anúncio nesse sentido”, pontuou o coordenador da Ameciclo. O prefeito do Recife informou que a elaboração do projeto do PDC para a Mascarenhas de Moraes está sob responsabilidade do governo estadual.

Foto: Luciano Ferreira

Foto: Luciano Ferreira

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