Ciclovia ameaçada de remoção triplicou uso de bicicleta na Consolação, em São Paulo

Ciclovia da Consolação: fazendo motoristas passarem ao lado dos ciclistas, em vez de buzinar e acelerar atrás deles. Foto: Willian Cruz

Ciclovia da Consolação: fazendo os motoristas passarem ao lado dos ciclistas, em vez de buzinar e acelerar atrás deles. Foto: Willian Cruz

Um levantamento realizado pelo Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) traz um dado importante para a discussão sobre remoção de ciclovias na cidade de São Paulo: após a implantação da estrutura da Rua da Consolação, o fluxo de ciclistas aumentou 227% no local.

Contagens de ciclistas realizadas antes e após a implantação da ciclofaixa (ou ciclovia, como queiram*) mostram que a quantidade de ciclistas mais que triplicou no local, passando de 243 viagens/dia em 2015 para 795 viagens/dia em 2017. Importante ligação da estrutura da Avenida Paulista com a rede cicloviária da região central, a faixa para ciclistas da Consolação tem maior utilização nos horários de entrada e saída do trabalho e um fluxo ligeiramente maior na subida (56%). A proporção de mulheres utilizando a via também cresceu no período, subindo de 12 para 15%.

Esse crescimento no uso é resultado direto do aumento na sensação de segurança ao pedalar nessa via – que apesar do nome “rua” tem características de avenida, com três faixas de automóvel, um corredor de ônibus, presença de caminhões e limite de velocidade de 50 km/h. Antes da estrutura, carros e caminhões pressionavam perigosamente os ciclistas na descida,enquanto a pressa e a velocidade dos motoristas tornavam impraticável a subida.

Baixe o estudo aqui em formato PDF, ou veja em imagens no final da matéria.

Aumento de 227%
em dois anos
 
No horário de pico,
85 ciclistas em uma hora
 
Das 6 às 7h da manhã,
crescimento de 417%
 
Estrutura é
mais usada na subida
 
Proporção de mulheres
subiu para 15%

Mais ciclovias, mais segurança, mais ciclistas

Esse levantamento sobre o uso da ciclovia da Consolação é mais um indicador de que a presença de infraestrutura cicloviária cria demanda, atraindo novos usuários para essa forma de deslocamento.

A Associação dos Ciclistas Urbanos de São Paulo (Ciclocidade) também faz contagens de ciclistas desde 2009 e, em todos os pontos onde houve a implantação de infraestrutura cicloviária, houve aumento no número de ciclistas circulando nas vias.

O estudo “Perfil de quem usa bicicleta na cidade de São Paulo”, realizado em 2015, apontou que 40% dos ciclistas paulistanos usava a bicicleta havia menos de um ano, o que representa um aumento de 66,66% na quantidade de pessoas pedalando após o início da implantação da malha cicloviária na cidade. Não à toa, as mortes de ciclistas caíram 60% entre 2014 e 2015.

Ciclovia perigosa?

Por Ciclocidade

Em declarações feitas recentemente à imprensa, o secretário de mobilidade e transportes, Sérgio Avelleda, classificou a ciclofaixa da Consolação como “perigosa” para ciclistas e aventou a possibilidade, inclusive, de removê-la.

É importante salientar que se existe perigo ali, ele não se deve às características da ciclofaixa, mas sim às demais dinâmicas do viário e à falta de respeito às leis de trânsito, como conversões à direita dos automóveis, paradas proibidas sobre a ciclofaixa, invasão de motociclistas, velocidades altas dos veículos motorizados e a saída das garagens.

Foto: George Queiroz

Foto: George Queiroz

Os dados apresentados evidenciam uma realidade oposta à apresentada pelo secretário. O aumento vertiginoso de ciclistas só foi possível porque estrutura possibilitou maior segurança e conforto para o deslocamento de ciclistas. A remoção desta ciclofaixa, portanto, representaria um enorme retrocesso para a política cicloviária da cidade.

Em vez que cogitar retirá-la, é preciso aumentar a fiscalização referente às infrações de trânsito, que (estas sim) colocam ciclistas em risco ao utilizá-la, além de fazer uma campanha de conscientização para quem trafega na região em veículos particulares mobilizados. Este é o papel que se espera da Prefeitura – um papel condizente com a Política Nacional de Mobilidade Urbana, que afirma categoricamente que as mobilidades a pé, por bicicletas e por transportes coletivos devem ser priorizadas sobre as demais.

*Ciclovia ou ciclofaixa?

Depende um pouco de interpretação. Por esse motivo, por muitas ciclofaixas virem sendo chamadas de ciclovias e porque o termo ciclofaixa vem sendo usado por muitas pessoas (inclusive pelo prefeito) para designar apenas a Ciclofaixa de Lazer, optamos por usar os dois termos.

Ciclovia é uma via segregada, enquanto ciclofaixa é uma área reservada apenas por sinalização: se você considerar tachões e balizadores como segregação, pode ser considerada ciclovia. Em outros países, não havia diferença de nomenclatura até pouco tempo, qualquer estrutura era chamada simplesmente de “bike lane” (faixa para bicicleta), até surgir o conceito de “separated bike lane” (faixa segregada para bicicleta). Não que já não existissem pistas com maior segregação, só não existia uma diferença de nomenclatura, porque mais importante que isso é a adequação de cada estrutura às características do viário onde ela é implantada.

Se você quiser chamar de ciclofaixa, chame. Se prefere ciclovia, muito bem. O importante, afinal, é seu interlocutor saber do que você está falando.

Entenda aqui a diferença técnica entre cada tipo de estrutura.


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