Se considerarmos a declaração da COP26 sobre transportes terrestres, que teve participação ativa dos fabricantes de automóveis em sua elaboração, é esse o futuro que nos aguarda: longos congestionamentos de carros elétricos, sem infraestrutura ou incentivos para outras formas de se locomover. Arte: Vá de Bike

COP26 ignorou bicicletas e apontou carro elétrico como única solução

Ignorando bicicleta e transportes coletivos, declaração final aponta futuro onde será preciso comprar um carro elétrico para se locomover

Apesar de ter como objetivo a criação de estratégias para reduzir emissões de carbono, as discussões da COP26 ignoraram completamente o incentivo ao uso da bicicleta e até mesmo de transportes coletivos. Por mais absurdo e inaceitável que isso possa ser.

A 26ª Conferência da ONU sobre Mudança Climática ocorreu em Glasgow, Escócia, em novembro de 2021. Com delegações de quase 200 países, culminou em um compromisso internacional para reduzir as emissões de carbono em 45% até 2030 (em relação aos patamares de 2010), com neutralização total até 2050.

São metas difíceis de alcançar, sobretudo com o recuo de última hora em relação ao abandono do uso de carvão, que ocorreu por pressão da Índia, China e de outros países que o utilizam em larga escala, mas também pela falta de propostas mais ambiciosas no setor de transportes terrestres.

Compre um carro elétrico para salvar o planeta

Os transportes motorizados são responsáveis por um quarto do CO2 emitido no mundo, sendo que os chamados veículos leves (basicamente, carros de passeio) causam 45% das emissões do setor. Dessa forma, tornam-se peça fundamental para redução do efeito estufa no planeta.

Uma estratégia bastante óbvia nesse contexto seria criar condições para que as pessoas substituam o uso do carro por trens, ônibus e os chamados deslocamentos ativos, como bicicleta e caminhada. Afinal, quanto menos veículos motorizados circulando, menor a emissão. Isso sem falar nos benefícios econômicos, sociais e de saúde pública, tanto para os indivíduos quanto para as cidades.

No entanto, a COP26 focou apenas na transição para carros elétricos, substituindo suas versões movidas a combustíveis fósseis mas mantendo o uso de transporte individual motorizado. Houve até a publicação de um compromisso assinado por governos, indústria automobilística e investidores para que apenas carros elétricos sejam vendidos em 2040, além de metas para esse segmento em 2022.

Claro que substituir os carros a combustão por modelos elétricos reduz as emissões. Porém o custo dessa mudança é bastante alto, ela demora a acontecer e países menos desenvolvidos terão grande dificuldade em efetuar essa transição. A demanda por eletricidade aumentará vertiginosamente e sua geração precisará ser sustentável. E ainda há a polêmica questão das baterias, tanto em relação à sua vida útil quanto principalmente ao seu descarte.

Ao ver as discussões e conclusões da COP26, fica a impressão de que a ONU prevê um futuro onde as pessoas precisarão comprar um carro elétrico para se deslocar. Bom para a indústria automobilística, que não por acaso participou ativamente da conferência do clima.

Bicicleta não fez parte das discussões

Apesar da Organização das Nações Unidas (ONU) considerar a bicicleta “um símbolo dos transportes sustentáveis” e afirmar que “andar de bicicleta causa um impacto positivo no clima”, não houve nenhuma discussão a esse respeito durante a COP26.

Mesmo no site da própria ONU, a organizadora da conferência, a única citação à bicicleta durante a COP26 foi feita nesta matéria. E não como parte da discussão oficial, mas como citação de um entrevistado.

Peri Dias, da 350.org, esclareceu à reportagem que as ações devem ir além da mudança de fonte energética, com mais e melhores transportes coletivos e estímulo ao uso da bicicleta e ao pedestrianismo.

Infelizmente, a linha de ação proposta por Dias não fez parte das discussões. Não houve um debate sequer sobre substituição de automóveis particulares por transporte coletivo ou modos ativos. Nada sobre aumento e melhoria do transporte público, nada sobre infraestrutura para ciclistas e pedestres, nada sobre planejar cidades que dependam menos do automóvel.

Ciclistas fizeram apelo aos governantes

Logo nos primeiros dias da Conferência, uma carta conjunta pelo uso da bicicleta fez um forte apelo aos governantes e líderes para que se comprometessem a aumentar significativamente o número de pessoas que pedalam em seus países.

O texto esclarecia que esse aumento pode ser alcançado construindo ciclovias, integrando bicicletas com transporte público (intermodalidade), aumentando a segurança viária e criando políticas que incentivem pessoas e empresas a trocar as viagens de carro pelo uso da bicicleta, do transporte público e da caminhada.

Organizada pela Federação Europeia de Ciclistas (ECF), a carta foi assinada por 350 organizações que atuam pelos ciclistas no mundo todo, incluindo o Vá de Bike. A União de Ciclistas do Brasil (UCB) disponibilizou uma versão em português em seu site.

Como aumentar o uso da bicicleta

Seis itens foram citados na carta como formas de aumentar significativamente o uso da bike:

  • Promover o uso da bicicleta em todas as formas, incluindo cicloturismo, ciclismo esportivo, bicicletas compartilhadas, deslocamentos ao trabalho ou escola e uso para exercícios
  • Reconhecer a bicicleta como uma solução climática, deixando claro que um aumento nas viagens de bicicleta e uma redução nas viagens de carro reduzem as emissões de CO2
  • Criar e financiar estratégias nacionais para a bicicleta e coletar dados sobre seu uso, para compreender onde melhorias na infraestrutura e no uso podem ser feitas
  • Focar investimentos na construção de infraestrutura cicloviária segura e de alta qualidade, e em incentivos para comunidades historicamente marginalizadas no uso da bicicleta
  • Fornecer incentivos diretos para que pessoas e empresas substituam o carro pela bicicleta em suas viagens diárias
  • Construir sinergias com o transporte público e promover soluções combinadas de mobilidade, para um ecossistema multimodal capaz de cobrir todas as necessidades dos usuários sem que precisem depender de um automóvel particular

Esse texto deveria fazer parte dos documentos oficiais da COP26. Mas, infelizmente, não se chegou nem perto de ser assim.

Intervenção da União Europeia

Se não fossem os esforços de mobilização da ECF e a intervenção de Matthew Baldwin, Vice-Diretor Geral de Mobilidade e Transportes da Comissão Europeia, não haveria nenhuma menção à bicicleta na 26ª Conferência da ONU sobre Mudança Climática.

A plenária sobre transportes teve palestras da Ford, Scania e Volvo, mas não deu voz a nenhum representante de fabricantes de bicicletas ou mesmo de trens, muito menos a organizações voltadas à mobilidade sustentável. Mas então Baldwin fez um discurso nessa sessão, que ocorreu em 10 de novembro, o chamado Transport Day.

O representante da UE reconheceu que a transição para veículos elétricos é “indispensável”, mas alertou que ela não será suficiente e que “mudar para uma frota de emissão zero deve fazer parte de uma abordagem mais ampla para a mobilidade multimodal inteligente e sustentável”.

Acrescentou que o mundo precisa de “mais uso do transporte público” e que “precisamos de mais caminhada, mais uso da bicicleta, como parte do movimento em direção a cidades neutras para o clima até 2030″. E enfatizou: “então, como parte desta grande declaração de hoje, por favor, não vamos perder de vista o quadro geral”.

Nota de rodapé sem efeito prático

Sua intervenção resultou na inclusão de uma frase final na chamada “Declaração de Glasgow sobre a Aceleração da Transição para 100% de Carros e Vans com emissões zero“. Sim, esse é o título do documento sobre redução das emissões de carbono no setor transportes terrestres, o que deixa claro o quanto o debate foi conduzido nessa direção.

Para a Forbes, “é possível que esta frase tenha sido inserida quando foi confirmado que Baldwin – o principal funcionário da UE em mobilidade urbana sustentável – falaria na sessão plenária”. Parece ter sido incluída apenas para acalmar ânimos e conter críticas, de forma que os organizadores e signatários possam alegar futuramente que abordaram, sim, esse tema.

Reconhecemos que, juntamente com a mudança para veículos com emissão zero, um futuro sustentável para o transporte rodoviário exigirá uma transformação mais ampla do sistema, incluindo suporte para viagens ativas, transporte público e compartilhado.

Repare que a frase inserida não estabelece metas, não aponta linhas de ação e nem detalha o que pode ser feito nesse sentido. E não houve de fato uma menção direta à bicicleta: o texto cita, de forma abrangente, “viagens ativas”, sem ao menos esclarecer o que são. As palavras bicicleta ou ciclismo não apareceram no documento final da COP26 sobre transportes.

Por outro lado, todos os 14 parágrafos anteriores apontam os veículos elétricos como solução e estabelecem metas para o segmento. O documento é assinado por governos, investidores e, claro, pela indústria automobilística, a maior interessada nessa linha de ação. E acabou se tornando uma declaração de que o carro elétrico será o salvador da humanidade nesse segmento.

COP26 deixou a desejar

Por Zé Lobo

E mais uma vez a conferência do clima deixa a desejar quanto a soluções viáveis e eficientes, com metas que serão difíceis de serem alcançadas com as soluções apresentadas.

Veja o caso do painel de transportes, que basicamente só falou em eletrificação e automação da frota. Deixou de lado investimentos de baixo custo e alta eficiência como a bicicleta, que só entrou no finalzinho, nos últimos minutos, porque a European Cyclists Federation apresentou uma carta sobre o assunto. Não fossem eles, mais uma vez a bicicleta estaria esquecida, como de certa forma ficou.

Aguardemos a próxima COP. Que venha com comprometimento real e soluções que visem abranger os três eixos da sustentabilidade: ser economicamente viável, ambientalmente correta e socialmente justa!

Zé Lobo é promotor do uso de bicicletas desde os anos 90, idealizador e fundador da organização Transporte Ativo, UCB – União de Ciclistas do Brasil e WCA – World Cycling Alliance. Vencedor de diversos prêmios no Brasil e no exterior, dentre eles o Cycling Visionary Awards no Velo City 2013, em Viena.

2 comentários em “COP26 ignorou bicicletas e apontou carro elétrico como única solução

  1. Excelente texto. Só escorregou ao afirmar “Claro que substituir os carros a combustão por modelos elétricos reduz as emissões”. Pode até reduzir no local de uso do motor elétrico, mas a o ciclo de vida do veículo elétrico e a matriz energética do país pode até virar esse jogo.
    Nesse texto abordamos o assunto e indicamos vídeos com informações boas para se informar, repensar, discutir…
    https://www.recicloteca.org.br/cidades/carros-eletricos/

    De quebra vale conferir texto que tenta fazer as bicicletas escaparem da cilada da eletrificação:
    http://transporteativo.org.br/ta/?p=13991

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    1. Oi Eduardo, tudo bom? Quanto tempo, meu amigo.

      Talvez eu devesse ter sido mais detalhista e escrito “reduz as emissões durante o deslocamento“. Mais adiante no mesmo parágrafo eu toco sutilmente na questão: “a demanda por eletricidade aumentará vertiginosamente e sua geração precisará ser sustentável“.

      De fato não entrei em detalhes sobre as emissões na geração da energia, porque o texto já estava bem extenso. Cheguei até a redigir um parágrafo sobre isso, mas como não era o foco eu o retirei antes de publicar, enquanto compactava um pouco o artigo para não virar uma tese…

      Mas não ignoro essa questão: já a abordei aqui no Vá de Bike há mais de uma década, em 2009 – https://vadebike.org/2009/10/a-poluicao-do-carro-eletrico/

      Em tempo: ótimos seus dois artigos! Obrigado pela contribuição e um grande abraço.

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