Infraestrutura e apoio ao ciclista facilitam uso da bicicleta em Buenos Aires

Eu e a caiçara nas ciclovias de BsAs

Como vocês já devem saber, estive em 2012 em Buenos Aires, capital da Argentina, para participar do Torneio Sul-americano de Bike Polo, que aconteceu nos dias 06 e 07 de outubro de 2012. Aproveitei a oportunidade para curtir quase 15 dias de férias, pedalando e conhecendo um pouco da cidade porteña.

Minhas primeiras impressões sobre o planejamento cicloviário do que seria o “centro expandido” deles é que, apesar de vários problemas, as ciclovias e ciclofaixas realmente funcionam e são bem utilizadas pela população.

Segundo o governo da Argentina, a primeira fase de implantação de ciclovias deu para a cidade cerca de 100 quilômetros de vias destinadas ao uso da bicicleta, parte do Programa municipal Bicicletas de Buenos Aires. Agora, em 2014, são mais de 130 km.

“O percurso dá acesso rápido às universidades, reconhecendo que os estudantes universitários são um dos principais beneficiários do programa. Por sua vez, a rede de ciclovias tem por objetivo facilitar o acesso a locais públicos de grande fluxo de pessoas”, diz o site do Programa.

A Argentina está claramente passando por um momento delicado, tentando valorizar a moeda local, estimular o pequeno comércio e melhorar a autoestima dos cidadãos, nesse contexto a bicicleta se torna mais que uma excelente opção de transporte: um estilo de vida saudável, cool e econômico.

Lá, assim como no mundo inteiro, também há congestionamentos, horário de pico, motoristas estressados, ônibus e taxistas raivosos. Mas muita gente pedala (ou conhece alguém que o faz) e a bicicleta se tornou uma ferramenta democrática e acessível, para uma cidade que é plana e bem arborizada.

Muitas crianças e idosos pedalam para todos os lados. Foto: Aline Cavalcante

Soube através de moradores que, até bem pouco tempo atrás, a cidade não tinha ciclovias e os investimentos para o uso da bicicleta como meio de transporte eram tímidos. Mas a atual administração estudou os deslocamentos feitos por bicicleta nos bairros mais centrais e simplesmente encheu as ruas (algumas principais e outras paralelas) de sinalização indicando a presença de ciclistas.

Há também estrutura compartilhada com pedestres em calçadas enormes e bem arborizadas.

Foto: Aline Cavalcante

Ciclovias compartilhadas com pedestres. Foto: Aline Cavalcante

“Ao fazer a conversão, ceda a vez a ciclistas e pedestres”

Além disso, a prefeitura reduziu drasticamente a velocidade dos carros, aplicando zonas 20, 30 e 40km; criou um mapa cicloviário que ilustra toda a rede de estrutura interligada; lançou o “Mejor en Bici”, programa de empréstimo e aluguel de bicicletas para moradores de Buenos Aires; aumentou os horários destinados à bicicleta nos metrôs; valorizou e impôs que motoristas respeitassem o ciclista. E de repente, de uma maneira simples, rápida, barata e bastante efetiva, conseguiu TRANSFORMAR a cidade em nível europeu.

“O Programa Bicicletas de Buenos Aires tem como objetivo fomentar o uso da bicicleta como meio de transporte ecológico, saudável e rápido. Este programa está alinhado com as tendências mundiais. As grandes capitais do mundo, como Paris, Nova York, Barcelona e Bogotá já têm adotado a bicicleta como aliada estratégica para aliviar o problema do trânsito e para promover uma cidade com práticas sustentáveis”, diz o site do Projeto.

Para os visitantes existe a opção das Bicicletas Laranjas, com serviço de aluguel e realização de passeios turísticos por pontos importantes da cidade. O resultado desses investimentos? Uma quantidade absurda de pessoas pedalando para todos os lados, experimentando descobrir a cidade do seu jeito, no seu tempo.

Atualizado: O “Mejor en Bici” foi substituído pelo “Sistema de Transporte Público en Bicicletas“, parte de um projeto bem mais abrangente chamado EcoBici. E o sistema agora também está disponível para turistas.

Mejor en Bici. Foto: Aline Cavalcante

 

Zonas 30. Foto: Aline Cavalcante

Mesmo com todos os pontos positivos, também pude notar alguns problemas que podem ser melhorados:

  • Muitos carros estacionados em área prioritária para bicicletas;
  • Falta de comunicação visual com o ciclista (indicando rotas, pontos turísticos, distâncias e direções);
  • Qualidade ruim de algumas ciclovias – localizadas em sarjetas e áreas com obstáculos da via;
  • Falta de bicicletários, paraciclos e estrutura de estacionamento.

 

Na sarjeta, correndo o risco de enfiar o pneu na grelha longitudinal. Foto: Aline Cavalcante

Apesar dos problemas, existe um ponto que ninguém pode negar – e que talvez seja o principal motivo pelo qual todas aquelas ciclovias sejam tão utilizadas. Elas são CONECTADAS e formam uma rede cicloviária decente! Os caminhos fluídos, inteligentes e orgânicos fazem da rede um braço importante da mobilidade urbana e qualidade de vida dos porteños, dando a eles mais uma opção de transporte e lazer.

Nossos vizinhos têm muito a nos ensinar. Povo que, além de pedalar, gosta bastante de caminhar pelas ótimas calçadas e sabe apreciar suas áreas verdes e valorizar o espaço público.

Lembrando que essas impressões são estritamente pessoais e refletem o convívio de apenas 15 dias no trânsito de BsAs.


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