Congresso no Rio trouxe ideias para a mobilidade que funcionaram em outras cidades do mundo

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Mary Jane Ortega, prefeita da cidade de San Fernando, nas Filipinas. Foto: Mariana Gil/WRI Brasil Cidades Sustentáveis

Mary Jane Ortega, prefeita da cidade de San Fernando, nas Filipinas. Foto: Mariana Gil/WRI Brasil Cidades Sustentáveis

Líderes de diferentes cidades do mundo estiveram reunidos no início de setembro no Rio de Janeiro para a realização da Cúpula de Prefeitos, evento inaugural do Congresso Internacional Cidades e Transportes. O objetivo do encontro foi promover a discussão sobre políticas municipais inclusivas e sustentáveis de mobilidade nas grandes cidades. Cada liderança teve a oportunidade de compartilhar com o público as experiências globais e alternativas viáveis para o futuro das áreas urbanas.

Como moderador, o presidente do WRI (World Resources Institute), Andrew Steer, iniciou o diálogo dizendo que há 100 anos estamos criando cidades ao redor dos carros e não de pessoas. “Esse modo de vida gera altos custos com saúde, poluição, trânsito e ruas mais perigosas”, disse. Em seguida ele se dirigiu aos políticos e perguntou qual era a visão de cada um acerca da cidade que eles queriam construir, sob o ponto de vista da gestão pública, promovendo igualdade social e de gênero.

Taxa de congestionamento e incentivo às bicicletas

O ex-prefeito de Londres, Ken Livingstone, lembrou que a iniciativa de realizar a cobrança de taxa de congestionamento foi uma forma valiosa de reduzir o uso do carro particular nas vias públicas. A ideia foi copiada de Singapura em 1979. Dessa forma, também é possível reverter as multas em investimento para o transporte público. Mesmo sofrendo críticas no início, ele ofereceu também novas frotas de ônibus e cartão inteligente para serviços de metrô. “Quando melhoramos o serviço e construímos faixas exclusivas para ônibus as pessoas começaram a usar o transporte público”, disse. Ken contou que a partir do ano 2000 a prefeitura começou a estimular o uso de bicicletas e nos últimos 15 anos isso revolucionou a cidade, dando tempo para a construção de mais metrô e trens. “Melhorar o transporte é fundamental”, disse ele, que tinha como objetivo promover viagens fáceis e de tempo reduzido para a população da cidade.

Estimular o uso da bike
revolucionou Londres
e deu mais tempo para
construir metrô e trens

Hoje Londres tem um plano de mobilidade que foi lançado no mês de julho e que visa melhorar até 2021 as ruas, o meio ambiente e o transporte com 10 iniciativas estratégicas que vão impactar o dia a dia dos londrinos. Atualmente, os londrinos gastam em média 38% do dia em automóveis (privados e táxis). O plano quer reduzir o percentual para 6% e os investimentos estão na casa de 4 bilhões de libras esterlinas. Livingstone lembrou que mais da metade da população mundial hoje vive em cidades e que o grande desafio é colocar essas pessoas no transporte público. “Eu vivi 17 anos em Londres e nunca aprendi a dirigir. Fazer a população se deslocar no transporte público de massa também é combater as mudanças climáticas e melhorar a qualidade do ar que respiramos”, lembrou.

Mary Jane Ortega, prefeita da cidade de San Fernando, nas Filipinas, por três mandatos consecutivos, disse que devemos sempre ter uma visão compartilhada de cidade. Trabalhar a questão da água, plantar mais árvores e criar uma cidade saudável de mente e corpo. “Eu queria uma cidade Jardim Botânico”, disse ela. A líder política relatou que sofreu preconceito quando entrou para a carreira pública, mas focou seu trabalho em ações para gerar energia, inovação, agricultura, saneamento e serviços básicos como a coleta de lixo e resíduos sólidos. “Fizemos parcerias para levar tecnologia e reduzir o descarte de recicláveis, melhorar o aproveitamento do lixo e extinguir os aterros sanitários”, contou.

Enrique Peñalosa, ex-prefeito de Bogotá, capital colombiana. Foto: Mariana Gil/WRI Brasil Cidades Sustentáveis

Enrique Peñalosa, ex-prefeito de Bogotá, capital colombiana. Foto: Mariana Gil/WRI Brasil Cidades Sustentáveis

Carros nas calçadas

Carros nas calçadas
são um atestado de
falta de democracia e
símbolo da desigualdade

O ex-prefeito de Bogotá, Enrique Peñalosa, que conduziu a introdução de sistemas viários inovadores durante sua gestão à frente da capital da Colômbia, foi mais longe. “Queríamos aumentar a felicidade das pessoas. A igualdade social poderia levar mais felicidade, caminhar, por exemplo, deveria ser seguro e prazeroso, mas havia muitos carros nas calçadas e cadeirantes sequer podiam se locomover”, contou. De acordo com ele, o fato de existir carros nas calçadas era um atestado de falta de democracia na cidade, um símbolo da desigualdade.

Foram criados 250 km de ciclovias aumentando o status social do ciclista. As calçadas foram melhoradas e ficou proibido o uso para carros estacionados. Com isso, os motoristas não eram mais os donos das ruas e o meio ambiente também se favoreceu com uma cidade mais sustentável. “O recurso físico mais valioso de uma cidade é seu espaço urbano. Como distribuímos esse espaço entre carros, ônibus, pedestres e bicicletas é mais uma questão político-ideológica, do que técnica ou de engenharia. Temos que pensar que tipo de cidade queremos sem esquecer que, se é verdade o que diz o primeiro artigo da constituição, todas as pessoas são iguais, logo, todas têm direito ao mesmo espaço urbano”, afirmou.

Economia e qualidade de vida

Redução no uso do automóvel
gerou economia para
os moradores de Portland

Já o ex-prefeito de Portland (EUA), Sam Adams, integrou o escritório de sustentabilidade ao de planejamento e tinha como metas a educação e a prosperidade. Ele incentivou o uso da bicicleta para curtas distâncias, aumentando em até 25% o número de alunos que vão de bicicleta para a escola. Ele também investiu mais em escolas para gerar alto nível de qualidade e prosperidade para a cidade. Além disso, o não incentivo do uso do carro gerou economia para as pessoas, que passaram a investir em educação, saúde, bem estar e qualidade de vida. “Procuramos não incentivar uma disputa entre os carros e as bicicletas, até porque 80% dos nossos ciclistas possuem carros. O que queremos é promover a alternativa como a melhor escolha” explicou Sam.

E o Rio?

Eduardo Paes, prefeito do Rio de Janeiro, também se juntou aos participantes da Cúpula, mas sua participação foi efêmera. Ele lamentou que a cidade possua características geográficas que a dividem naturalmente e promovem a desigualdade social. No entanto, afirmou que está promovendo a integração por meio de transporte de massa de locais como a região portuária.

Paes disse ainda que a desigualdade sempre vai existir porque não há como ter um “Leblon” em todos os lugares do Rio e que o congestionamento do trânsito também vai continuar, porque não há como evitar isso com o tanto de carros que há nas ruas. Ele comentou também sobre o seu amor pela cidade do Rio de Janeiro.

Sobre o evento

As cidades brasileiras ainda enfrentam muitos obstáculos para se tornarem mais sustentáveis. Com o objetivo de pensar e debater coletivamente alternativas viáveis para o futuro das áreas urbanas, o WRI Brasil Cidades Sustentáveis promoveu o Congresso Internacional Cidades & Transportes, que reuniu mais de 140 palestrantes de 19 países, entre prefeitos, ex-prefeitos, especialistas internacionais, iniciativa privada e organizações da sociedade civil. O evento aconteceu nos dias 10 e 11 de setembro, na Cidade das Artes, no Rio de Janeiro.

WRI Brasil Cidades Sustentáveis

Ao completar 10 anos, o WRI Brasil | EMBARQ Brasil torna-se o WRI Brasil Cidades Sustentáveis. O WRI Brasil Cidades Sustentáveis trabalha para transformar grandes ideias em realidade. Desenvolve projetos de impacto real, com foco em mobilidade, desenvolvimento urbano, segurança viária, água, energia e clima para melhorar a vida de milhões de pessoas nas cidades brasileiras. Integra o programa global WRI Ross Centro para Cidades Sustentáveis, formado por mais de 200 profissionais em escritórios no Brasil, México, Índia, China, Turquia e Estados Unidos. O programa visa influenciar mais de 200 cidades até 2019 para que elas se tornem mais acessíveis, saudáveis e equitativas.

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