Debate e pedalada levantam discussão sobre a despoluição do Rio Pinheiros, em São Paulo

Os participantes do debate. Foto: JB Carvalho/Shimano

Os participantes do debate. Foto: JB Carvalho/Shimano

A despoluição do Rio Pinheiros foi o tema de um debate realizado no dia 9 de dezembro na sede da Shimano Brasil, em São Paulo. O evento, que foi transmitido ao vivo pelo Vá de Bike, uniu representantes do poder público, sociedade civil e iniciativa privada para discutir o presente e o futuro de um dos maiores rios da capital paulista.

João Magalhães, da Shimano, dá início ao debate. Ao fundo, de camisa clara, Eduardo Rocha, da Caloi (esq.) ao lado de outro Eduardo Rocha, da EMAE. Foto: JB Carvalho/Shimano

João Magalhães, da Shimano, dá início ao debate. Ao fundo, de camisa clara, Eduardo Rocha, da Caloi (esq.) ao lado de outro Eduardo Rocha, da EMAE. Foto: JB Carvalho/Shimano

A participação de Eduardo Rocha, da EMAE (Empresa Metropolitana de Águas e Energia), foi fundamental, apontando com clareza os principais motivos da poluição das águas do rio e o que já se tentou fazer para reverter a situação, dando uma verdadeira aula (vale a pena acompanhar no vídeo no final da página). Rocha apontou que, mais do que os já conhecidos descartes irregulares de lixo nas ruas e de resíduos das indústrias, que são levados ao rio pela chuva, uma das maiores causas da poluição atualmente é o esgoto de comércio e principalmente moradias, muitas vezes lançado diretamente na rede de águas pluviais para evitar o pagamento de impostos sobre uso da rede de esgoto.

“A fiscalização do esgoto é mais complexa do que imaginamos, é como procurar agulha num palheiro”, destacou. “A despoluição vem sendo feita, mas é lenta. Comércio e indústria precisam tratar seu esgoto antes de despejá-lo nos rios”. O representante da EMAE também citou o descarte de materiais de construção, explicando que o de garrafas PET, em contrapartida, “diminuiu muito por causa do aumento do preço pago na reciclagem”.

Conscientizar e ocupar

“O rio nasce limpo, somos nós que o sujamos. Não temos de limpá-lo, mas parar de sujá-lo”, declarou Carolina Ferrés, da ONG Cidade Azul, que realiza um trabalho de mapeamento de todos os rios de São Paulo, até mesmo os enterrados pela urbanização, tendo como um dos objetivos  alertar a população. ”Usamos materiais de divulgação para transmitir uma mensagem: sua sujeira está indo para o rio”, contou Lecuk Ishida, também da Cidade Azul.

Renata Falzoni, do Bike é Legal, ao lado de Lecuk Ishida e Carolina Ferrés, ambos da Cidade Azul. Foto: JB Carvalho/Shimano

Renata Falzoni, do Bike é Legal, ao lado de Lecuk Ishida e Carolina Ferrés, ambos da Cidade Azul. Foto: JB Carvalho/Shimano

Essa ação segue no sentido de conscientizar a população de que o rio é um patrimônio ambiental que precisa ser recuperado e preservado. Um dos primeiros passos nessa direção é a ocupação e uso das margens para atividades culturais, de lazer e mesmo cotidianas, como o deslocamento em bicicleta, para que os cidadãos tenham mais contato com o Pinheiros e vejam de perto sua situação e seu potencial.

“Há atualmente um movimento mundial de ocupação dos rios urbanos. Aqui em São Paulo as pessoas precisam enxergar o rio como propriedade delas. Se a cidade é nossa, temos de preservá-la. A crise hídrica tem um papel importante nesse sentido, pois as pessoas começaram a entender de onde vem a água e a olhar para os rios com mais consciência”, disse Juliana Cibim, do Instituto Democracia e Sustentabilidade.

A editora da revista Sport Life, Vanessa de Sá, citou iniciativas adotadas em outros países. “Em 2002, a França iniciou um pequeno projeto para transformar trechos do Rio Sena em praias, e isso depois virou um grande projeto. A revitalização do Pinheiros precisa vir acompanhada de um plano paisagístico, mesmo ele ainda estando poluído”.

Os convidados citaram o Projeto Pomar como uma das iniciativas para a revitalização das margens do rio. Criado em 1999 pela Secretaria do Meio Ambiente para “devolver vida às margens do rio e promover a educação ambiental”, recebeu inicialmente o apoio de empresas públicas e privadas, mas atualmente, devido à falta de patrocínio, existe apenas uma manutenção básica do projeto, sem expansão.

Juliana Cibim, do Instituto Democracia e Sustentabilidade.  Foto: JB Carvalho/Shimano

Juliana Cibim, do Instituto Democracia e Sustentabilidade. Foto: JB Carvalho/Shimano

Ciclovia

A Ciclovia Rio Pinheiros, inaugurada em fevereiro de 2010 e administrada pela CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos), foi fator catalisador na volta da população para as margens do rio. Entretanto, a estrutura enfrenta hoje diversos problemas causados pela falta de acessos, de iluminação e pela interdição para as obras do monotrilho, como apontaram Willian Cruz, do Vá de Bike, e Renata Falzoni, do Bike é Legal.

“A ciclovia é bastante útil para esporte e lazer, mas há vários complicadores que diminuem muito o uso para transporte”, apontou Cruz. “Muitas pessoas deixam de usar a ciclovia porque precisariam fazer uma volta grande para conseguir chegar a um acesso, ou porque as passagens para a outra margem [para desviar das obras] consome tempo um tempo que a pessoa não pode perder ao ir para o trabalho.” O editor do Vá de Bike explicou que mesmo havendo acessos em todas as estações de trem, isso ainda não seria suficiente, pela distância existente entre elas. “O ideal seria termos acessos em todas as pontes, porque quem está de bicicleta geralmente chega por uma via que dá em uma ponte. E isso já não depende só da CPTM, mas também da prefeitura”, ressaltou.

Willian Cruz ainda ressaltou que as escadas nas travessias do rio, impostas aos ciclistas por conta das obras do monotrilho, são pontos de risco, e que juntamente com os assaltos que são comuns na margem oeste contribuem para desincentivar o uso da estrutura em deslocamentos diários.

“É preciso estender o horário de uso, aumentar os acessos e liberar o trecho interditado devido às obras do monotrilho, hoje paralisadas”, afirmou Renata Falzoni, do site Bike é Legal. A alegação para o fechamento da ciclovia no período noturno é a falta de iluminação, mas os dois ativistas destacaram que ciclistas urbanos têm iluminação na própria bicicleta e que esse discurso encobre a real preocupação, que é a segurança dos ciclistas.

Willian Cruz, do Vá de Bike. Foto: JB Carvalho/Shimano

Willian Cruz, do Vá de Bike. Foto: JB Carvalho/Shimano

Sobre os assaltos no lado oeste do rio, Falzoni apontou que “quando questionadas sobre isso, todas as autoridades tiram o corpo da reta: governo do estado, CPTM, polícia militar. Hoje não temos, por exemplo, um trabalho social para garantir oportunidades às comunidades carentes daquela região e promover a integração delas com a ciclovia.”

Maria Luisa Parra, supervisora geral de estações da CPTM, e Affonso Dantas, analista de comunicação, ouviram as sugestões e destacaram o crescimento no número de usuários desde o ano de inauguração: de 1620 ciclistas por mês em 2010, a ciclovia do Rio Pinheiros passou a receber 43 mil mensalmente em 2015, um aumento de mais de 2600% em cinco anos. Imagine como não seria esse uso se a demanda para deslocamentos diários fosse atendida plenamente.

“A ciclovia não fazia parte da nossa operação, foi uma missão dada para a gente. A interação com o ciclista passou a ser mais significativa há apenas dois meses, a partir da liberação da entrada de bicicletas nos trens em todos os dias, e não mais somente nos finais de semana. É natural que nossa adequação se dê com um certo tempo e alguma prática”, pontuou Afonso.

Cabe lembrar que as conversas entre cicloativistas e CPTM vêm desde 2009, meses antes da inauguração da ciclovia, sendo que naquela época já destacávamos o aumento dos acessos e do horário de funcionamento. Esse contato foi especialmente importante no período de início das obras do monotrilho, quando cicloativistas conseguiram negociar a disponibilização de uma alternativa à interdição, com a construção da pista na margem oeste.

A ciclovia Rio Pinheiros tem um potencial enorme para a mobilidade e para a conscientização sobre a importância do rio. Veja matéria que já fizemos sobre esse assunto. E conheça os acessos e horários de funcionamento da ciclovia.

Rogério Tancredi, da Shimano. Foto: JB Carvalho/Shimano

Rogério Tancredi, da Shimano. Foto: JB Carvalho/Shimano

Debate é um primeiro passo

O debate é uma iniciativa inédita e tem como objetivos não apenas alimentar a discussão e semear sugestões, mas também criar um grupo envolvendo organismos e profissionais que têm legítimo interesse em divulgar e trabalhar pela causa da despoluição do Rio Pinheiros. Nesse contexto, a Shimano se coloca como incentivadora do movimento e elo de ligação entre estas partes, por enxergar na bicicleta e no ciclista os elementos de uma transformação gradual e necessária para a melhoria da qualidade de vida de todos e das gerações futuras.

“A Shimano tem a filosofia de não pensar somente na receita gerada pela venda do componente ou do acessório, mas pensar em fomentar ações que melhorem a qualidade de vida de determinada região. Seria bom para todos se o Pinheiros fosse despoluído: teríamos comércio em volta do rio e mais gente fazendo atividades ao ar livre”, avaliou Rogério Tancredi, gerente de marketing da empresa. ”A iniciativa não é só da Shimano”, ressalta João Magalhães, do departamento de comunicação. “Por sorte, outras pessoas abraçaram a causa. Este pode ser o início de um duradouro grupo de discussão”.

Foto: JB Carvalho/Shimano

Foto: JB Carvalho/Shimano

Pedalada

No dia 13 de dezembro, um domingo, a Shimano promoveu mais uma edição do Pedal das Capivaras, uma pedalada pela Ciclovia Rio Pinheiros. Um grupo com cerca de 50 ciclistas, entre representantes da imprensa, da indústria e comércio do setor, do esporte, do poder público e de outros segmentos relacionados à bicicleta, percorreu 20 quilômetros ao longo da margem do rio, saindo do Bike Park Cancioneiro – espaço para a prática de BMX e outros esportes radicais localizado sob a Ponte Estaida.

O evento, que ocorre anualmente desde 2001, teve um componente cultural importante esse ano: durante o trajeto, os convidados receberam informações e dados históricos sobre o Rio Pinheiros, transmitidas em fones de ouvido por Alice Silva, bióloga da Ambiens Soluções Ambientais. “O rio ficou esquecido por décadas, era uma ‘sujeira varrida para debaixo do tapete’”, comparou Willian Cruz. “Com o advento da ciclovia, as pessoas passaram a frequentar este lugar e a ver os problemas de perto. E isso é muito importante, porque as pessoas tem de entender como foi o rio, como ele é e como pode vir a ser. Nesse aspecto, foi muito importante o apoio da bióloga durante a pedalada, ajudando a traçar esse panorama. Há um potencial turístico enorme no Rio Pinheiros e isso precisa ser aproveitado pela cidade e por seus cidadãos”, completou.

Vídeo

Assista a íntegra do debate, no vídeo que transmitimos ao vivo durante o evento:


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