Dia de folga a funcionários públicos que usam bike gera polêmica em Pernambuco

A gestora governamental Eduarda Lippo, é funcionária pública estadual e aprovou a medida. Foto: Rosália Vasconcelos

A gestora governamental Eduarda Lippo é funcionária pública estadual e aprovou a medida. Foto: Arquivo pessoal

Uma medida de incentivo ao uso da bicicleta, batizada de “Pedala Servidor”, está gerando polêmica em Pernambuco. A lógica é a seguinte: o servidor público estadual que for trabalhar de bicicleta todos os dias do mês ganhará um dia de folga. O projeto ainda possibilita que os funcionários públicos adquiram bicicleta e equipamentos de segurança por meio de crédito consignado. A implantação do Pedala Servidor aconteceu no fim de outubro de 2015, mas até agora a adesão à bicicleta como transporte diário tem sido tímida.

Segundo Rosaly Almeida, coordenadora estadual do Escritório da Bicicleta, vinculado à Secretaria de Turismo, o projeto Pedala Servidor também prevê a destinação de 8% do salário para financiamento de bicicleta e kit de segurança composto por capacete, luva e garrafa squeeze (caramanhola). “O servidor poderá pagar em até 72 meses, com juros de 2,9%”, informa.

Polêmica

Um ponto polêmico da medida é sobre quem paga a conta da folga de um serviço, que é público, para um benefício individual. Cezar Martins, da Ameciclo (Associação Metropolitana dos Ciclistas do Grande Recife), pondera que a iniciativa é positiva, mas não atinge o foco do problema, que é a falta de infraestrutura cicloviária. Para ele, o prejuízo para administração pública é menor do que parece e os benefícios são coletivos. Em outros países, medidas públicas desse teor também têm sido adotadas, embora só depois do investimento em uma malha cicloviária.

“O problema da medida é que ela é só para servidores estaduais. Países que estão investindo em benefícios para quem usa a bicicleta como modal de transporte estão tomando um caminho mais geral, para toda a população. Eles calcularam o benefício para a cidade e estão pagando para as pessoas se deslocarem de bicicleta. No nosso caso, tudo não passa de uma cortina de fumaça para um estado que tem como obrigação fazer ciclovias para todos e anuncia essa medida como um grande benefício, que é na verdade para poucos”, compara Martins.

“Há um problema de estacionamento em todos os órgãos, que poderia ser melhorado caso os servidores públicos apostassem no projeto. E há um ganho de saúde para a pessoa, que se reflete na produção. Na França, houve um projeto parecido, mas para trabalhadores da iniciativa privada e não como uma exclusividade dos servidores”, completa.

O representante da Ameciclo diz que essa medida é um grande benefício, mas destinado a uma pequena parte da população. “Tem pouco reflexo na mobilidade urbana. Poucos vão aderir porque não se tem ciclovia”, defende.

Aprovação

A gestora governamental Eduarda Lippo, 31 anos, é funcionária pública estadual e aprovou a medida, embora já fosse adepta da bicicleta como transporte diário. “A falta de vestiários e locais para higienização ainda são os principais entraves para eu manter a bicicleta todos os dias ao trabalho”, avalia.

Apesar das deficiências, ela vê como positiva a iniciativa. “A cultura do carro ainda está bastante impregnada. Em um lugar onde a estrutura urbana é precária para a bicicleta, essa sinalização do estado pode ser bastante útil na mudança de mentalidade. A ideia de oferecer uma folga mensal para o servidor que se locomove de bicicleta ao trabalho é um incentivo sutil, mas bastante inteligente”, defende Eduarda.

Para a servidora pública estadual, se metade dos servidores conseguisse aderir à “magrela” diariamente para trabalhar e estudar, os efeitos seriam imensuráveis. Mas concorda que outras ações também precisam ser adotadas. “A iniciativa por si só, sem que seja aos poucos acompanhada de outros incentivos nesse sentido, pode perder seu sentido e se tornar inócua”, avalia.

O servidor federal Felipe Bôaviagem trabalha em uma unidade do MPF, mas não é elegível para o programa de uma folga mensal. Foto: Arquivo pessoal

O servidor federal Felipe Bôaviagem trabalha em uma unidade do MPF, mas não é elegível para o programa de uma folga mensal. Foto: Arquivo pessoal

Folga no MPF

O Ministério Público Federal em Pernambuco já havia adotado a política de folga de um dia no mês para quem fosse trabalhar pelo menos 15 dias úteis no período de um mês. Além da concessão do abono, o MPF também construiu um vestiário no prédio. Apesar disso, poucos aderiram à medida.

O servidor federal Felipe Bôaviagem trabalha em uma unidade do MPF, a Procuradoria Regional da República, em que a medida não vale. “Infelizmente, a iniciativa foi adotada apenas pela Procuradoria da República em Pernambuco. Só os servidores lotados nessa unidade gozam desse benefício. A notícia que tenho é de que houve um incremento no número de pessoas que passaram a andar de bicicleta. Além disso, a folga também não veio isolada na PRPE. Eles fizeram dois excelentes vestiários, com vários chuveiros, área privativa para trocar de roupa e armários”, conta Felipe.

Para ele, tanto a iniciativa do MPF quanto do governo do estado foram excelentes. “É um estímulo para quebrar o preconceito com o uso da bicicleta como transporte. Se as pessoas experimentassem ao menos uma vez a bicicleta para se deslocar na cidade iam perceber seus benefícios e, certamente, passariam a usá-la com habitualidade”, defende Felipe Bôaviagem.


3 comentários para Dia de folga a funcionários públicos que usam bike gera polêmica em Pernambuco

  • Nadiane

    Essa iniciativa tem que ser aderida pelas empresas privadas também. Se elas tivessem algum incentivo por parte dos governadores, talvez o movimento ganhasse força. Meu projeto de TCC que é justamente esse, mas, mais voltado para empresas privadas.

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  • Rosana

    Aqui no Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF1) em Brasília estamos relançando o programa Vem de Bike que é Legal (foi lançado em 2014). Teve bonde no Dia de Bike ao trabalho com quase 40 ciclistas, nosso bicicletário foi muuuito ampliado, ganharemos armários maiores e ventilados do lado de fora dos vestiários (porque a roupa suada dentro do armário estava causando.. digamos… aborrecimentos) e a par disso temos durante toda essa semana exposição e venda de bikes lá mesmo nos corredores do Tribunal!
    Agora, se ganhássemos uma folguinha também… seria o útil unido ao agradável!

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  • Anderson

    Queria ser funcionário público de Pernambuco em São Paulo… rs

    Já temos boa rede de ciclovias, falta só onde tomar banho, e se vierem os incentivos melhor ainda.

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