Espaço comunitário ciclístico de Porto Alegre poderá utilizar prédio público

A Oficina Comunitária Cidade da Bicicleta, ainda em seu antigo endereço. Foto: Divulgação

A Oficina Comunitária Cidade da Bicicleta, ainda em seu antigo endereço. Foto: Divulgação

Ponto de encontro de ciclistas e interessados no universo da bicicleta, a Cidade da Bicicleta virou referência no bairro Menino Deus, em Porto Alegre. Por dois anos, a casa abrigou uma oficina comunitária que abria semanalmente, além de reuniões periódicas de coletivos ligados à mobilidade urbana, e festas e eventos relacionados ao tema. Com o imóvel que serviu provisoriamente ao ponto devolvido ao proprietário, no fim de junho deste ano, seus principais usuários começaram a busca por um novo local que comporte as atividades realizadas desde 2011.

De acordo com Marcelo Kalil, cozinheiro, jornalista e cicloativista que devotava suas tardes e noites de segunda-feira a cuidar da oficina, com a ajuda de outros voluntários, existe a chance de que a Cidade da Bicicleta possa funcionar em um prédio cedido pela Prefeitura de Porto Alegre ou pelo Governo do Estado. Procurado por representantes da administração municipal e também aguardando informações sobre imóveis disponíveis sob responsabilidade do Estado, ele conta que o pré-requisito para a cessão do imóvel é que haja a responsabilização por parte de uma entidade formal, com CNPJ.

“Nesse caso, a própria Cidade da Bicicleta poderá se tornar uma pessoa jurídica, ou algum dos coletivos ou associações já formalizados, que também se reuniam no local, poderão se tornar responsáveis pelo funcionamento da CB”, explica Kalil. Como anteriormente, as atividades também poderão acontecer em uma propriedade particular cedida para seu funcionamento, caso haja alguma oferta.

Histórico

Foto: Divulgação

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A Cidade da Bicicleta tomou forma no início de 2011. Na época, o advogado e hoje vereador Marcelo Sgarbossa, primo do proprietário de uma casa ociosa no bairro Menino Deus, teve a possibilidade de compartilhá-la com amigos ciclistas e cicloativistas, com alguns dos quais costumava pedalar na Massa Crítica. “Eu me baseei no princípio da confiança, e ofereci a chave a quem se dispusesse a utilizá-la de maneira responsável. Contrariando a crença do senso comum, que parte do princípio de que o outro sempre age em má fé, nunca houve nenhum incidente que ferisse essa confiança mútua”, conta.

Como era uma propriedade particular, havia a chance de que o terreno fosse reclamado pelo proprietário mais cedo ou mais tarde, o que de fato aconteceu. Enquanto esse dia não chegava, a casa foi também usada como sede provisória de coletivos como o Laboratório de Políticas Públicas e Sociais (LAPPUS) e a Mobicidade, Associação pela Mobilidade Urbana em Bicicleta.

A CB marcaria o início de sua movimentação com uma festa no dia 25 de fevereiro, uma sexta-feira. Porém, teve a programação abalada por um fato trágico: o atropelamento intencional dos participantes da Massa Crítica pelo bancário Ricardo José Neis, que feriu 17 ciclistas e o levou a ser indiciado por tentativa de homicídio. A reunião posterior, que era para ser festiva, acabou virando uma assembleia para que as pessoas presentes no incidente obtivessem orientação jurídica e confeccionassem cartazes para uma grande manifestação que ocorreu na terça-feira seguinte, 1º de março, e que reuniu cerca de 2 mil pessoas.

A partir dali, o local virou um efervescente ponto de convergência de pessoas e ideias, que tinham em comum a bicicleta, tanto em seus aspectos funcionais, como também culturais. Para Marcelo Kalil, essa característica foi o principal legado da casa. “Acho que a principal contribuição da CB para a cultura da bicicleta foi proporcionar um espaço onde as pessoas podiam conhecer gente com os mesmos ideais, dando-lhes confiança e apoio para não apenas continuar pedalando, mas para criar e desenvolver outras iniciativas. Foi o caso do Fórum Mundial da Bicicleta, cuja idéia surgiu e evoluiu dentro do espaço da CB, e com o mesmo tipo de organização dela: horizontal, descentralizada e independente”, acredita.

Nos pouco mais de dois anos em que a Cidade da Bicicleta esteve no Menino Deus, ela recebeu os preparativos de duas edições do Fórum Mundial da Bicicleta, festas temáticas de eventos como o próprio FMB e o Festival Intergalático da Bicicleta, o brique da bici (com a venda e troca de peças e assessórios para bicicleta), brechós de roupas e acessórios, e até um leilão de obras de arte, cuja renda foi direcionada para a realização do Fórum.

No entanto, o elo que unia todos esses acontecimentos e permitiu a continuidade da CB era a oficina comunitária, aberta todas as segundas-feiras à tarde e à noite e, nos últimos meses, também às quartas. Do mesmo modo que outras oficinas de organização coletiva como a Mão na Roda, de São Paulo, lá era possível levar a bicicleta para pequenos reparos, para troca de conhecimentos sobre mecânica, tudo de maneira gratuita ou com a contribuição voluntária em dinheiro e mediante a doação de peças de bike, ou mesmo de mão-de-obra.

“A grande chave para que acontecesse tanta coisa era que ela tinha uma atividade semanal, regular. As outras atividades eram esporádicas e não garantiriam a perenidade da CB. Para que ela acontecesse, havia uma mínima organização representada pela oficina, que acabou virando um ponto rotineiro de encontro para quem queria falar de bicicleta, para além da Massa Crítica”, relembra Sgarbossa.

Espaço aberto à população

A preocupação de Kalil, independente do próximo espaço que a Cidade da Bicicleta use, é que a dinâmica da casa possa permanecer. “A CB sempre funcionou de forma horizontal e aberta. Todos são convidados a participar e a voz de todos tem o mesmo peso – não importa se a pessoa está ali desde o começo ou se chegou há cinco minutos. Tentamos sempre ser o mais inclusivos possível para permitir que todas e todos participassem em pé de igualdade”, explica.

Esse modus operandi, segundo Kalil, sempre proporcionou um funcionamento democrático, conseguindo receber a grande parte das atividades que eram propostas, além de fomentar uma crescente cultura da bicicleta em Porto Alegre, motivando iniciativas posteriores e criando demanda e pressão sobre o poder público para a criação e melhoria da infraestrutura para esse meio de transporte.


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